Namoro ou amizade?

Fim de tarde de uma quinta-feira chuvosa em São Paulo – com a licença do pleonasmo. Ricardo Tem-Cheiro e Andreas Sem-Chances se reúnem para mais um encontro da cúpula do futebol brasileiro. Presidente e Chefe de Delegação discutem sobre o momento do futebol no país e as ações que precisam ser tomadas, para que o mal que assombra a tranquilidade do status quo seja devidamente combatido e superado! “Tem que segurar os cara, Ricardinho…”, murmurava Andreas.

- Tem-Cheiro… Temos que dar um jeito de contornar essa situação… Estou ficando preocupado, meu… É ano de Centenário!

- É… Desde meus tempos de criança os caras enchem o meu saco… Todo jogo contra eles era um “Ai, Jesus”…

- Dá um jeito aí, Ricardinho… Assim, não pode ficar… Os caras estão jogando desfalcados, e só fazem abrir a diferença, meu! Vamos segurar os caras no apito! Já fizemos isso antes, diversas vezes, e funcionou…

- Já tentamos… Não acompanhou as primeiras rodadas, não? Viu o teu jogo contra os caras? Mas não tá dando…

- Meu, então dá um jeito de a gente não perder mais ponto!!!

- Estamos tentando… Vamos continuar tentando… Mas o teu time perde os penalties!! Manda o técnico lá colocar alguém para treinar, rapaz! Já adiei o jogo do meio de semana para outubro! Até lá, quero ver um cobrador decente no teu time!

- Mas e agora, Ricardinho?! O que a gente faz para resolver esse problema, meu?! Tô puta preocupado, mano…

- Andreazinho, meu chefe… Tenho uma ideia! Vamos tirar os caras da casa deles! Vamos fechar o Maracanã!

- Se liga, meu… SUDERJ já disse que só vai reavaliar o fechamento do Maracanã daqui a 50 dias… Até o governo do estado do Rio de Janeiro disse que não vão fechar antes disso… Oh, Jesus…

- Não, rapaz… É “Ai, Jesus…”.

- Isso, meu… Ai, Jesus!!!!

- Fica tranquilo, Andreazinho… A gente inventa alguma coisa… Isso é o de menos…

- Mas inventa o quê, Tem-Cheiro?!

- Sei lá, cara… A gente fala que tem que fechar o estádio no final do primeiro turno. E diz que queremos garantir que nenhum clube será desfavorecido com essa decisão. Logo, há que se aplicá-la antes do início do segundo turno…

- Ricardinho… Mas isso não faz o menor sentido…

- Rapaz… Andreazinho… Por acaso faz algum sentido você ter sido Chefe da Delegação da nossa Seleção na África do Sul?..

- E verdade, meu… Se liguei…

Abraçam-se os cartolas. Com a cabeça repousada sobre o ombro direito de Tem-Cheiro, mãos espalmadas sobre as costas largas do cartola, olhar fixo no canto inferior da sala escura, semblante melancólico e preocupado, Sem-Chances dispara, em seu último suspiro:

- Ricardinho… Não sei se tirar os caras de casa vai resolver… Eles ganharam os últimos 5 jogos fora…

Tem-Cheiro dá uma cafungada no cabelo de Sem-Chances, olha para o alto, queixo apoiado sobre a cabeça de Andreazinho, mão esquerda repousada sobre a nuca do chefe de delegação, respira fundo e aplica seu último afago:

- OK, Andreazinho… Vamos te dar um estádio… Está se sentindo melhor agora?

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Ao que tudo indica, Sérgio Cabral apoiará o Fluminense na luta para que o Maracanã permaneça aberto, como anunciado anteriormente pelos órgãos competentes e responsáveis pelas obras.
Ricardo Tem-Cheiro deu azar… Estamos em ano de eleições e milhões de votos de eleitores tricolores podem fazer a diferença.
Lembre-se, Cabral: sem Maracanã, sem voto!

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Mais um domingo de Fluminense em casa, mais um domingo de show no Maracanã. Independente da campanha que vem fazendo o Tricolor neste campeonato, o futebol brasileiro deve prestar reverência à nossa Torcida. Sensacional, só para variar. Infelizmente, Muricy não conseguiu colocar em prática o esquema que preparou para enfrentar o São Paulo.

Belletti, simplesmente, errou tudo! Com a bola nos pés foi sofrível. Na marcação, foi absolutamente ridículo. Nosso meio-campo jogou 45 minutos com um buraco pela meia-esquerda do São Paulo. Diogo se sacrificou para cobrir o Mariano e para marcar Fernandinho – este, muito bem na primeira metade do jogo. Bob, do outro lado, cobria Júlio Cesar – um dos melhores em campo – e marcava Marcelinho. Caberia a Belletti promover o equilíbrio defensivo naquele setor. Inexplicavelmente, víamos Belletti recuar até a meia-lua de nossa área. Naquela altura, resolvia dar o bote – totalmente fora de tempo. Ontem, Belletti foi a personificação da falta. Fez falta e faltaram-lhe técnica, tempo de bola e reflexo. A infração que originou o gol de empate do São Paulo, bem cobrada por Rogério Ceni, foi bisonha.

Com a entrada de Rodriguinho em seu lugar e, inclusive, diante de um adversário enfraquecido com a saída de Fernandão, o Fluminense voltou a jogar como Fluminense. Um time agudo, insinuante e muito perigoso pelas laterais. Conca e Deco, ambos, fizeram excelente partida. O primeiro deixou sua marca e o argentino, por muito pouco, não fez o dele de peixinho, depois de boa jogada (dentre muitas) de Júlio Cesar.

O gol de Leandro Eusébio veio em excelente momento. Uma demonstração de força do time de Muricy. Falta na lateral da área, muito bem cobrada por Conca, aproveitada pelo nosso melhor zagueiro.

Naquele momento, a torcida definitivamente inflamou-se e explodiu em êxtase. No embalo dos Guerreiros das Arquibancadas, nosso time seguiu apertando o adversário, encurralando-o em seu próprio campo.
Finalmente, em boa triangulação envolvendo Conca e Deco – só para variar –, o luso-brasileiro invadiu a área e, se não fosse o cotovelo de Richarlysson a interceptar o drible, entraria com bola e tudo. Penalty bem marcado! Mas muito mal aproveitado… Evidentemente, a escolha do cobrador foi extremamente infeliz… Ainda mais infeliz do que a entrada de Belletti no primeiro tempo! Washington – que nunca foi, não é, tampouco será um exímio cobrador de penalties – treinara com o goleiro são-paulino por 18 meses. Resultado: 2 pontos desperdiçados. “A bola pune”, como diz nosso comandante.

Após a cobrança desperdiçada, uma ducha de água fria em time e torcida, o Fluminense ainda teve algumas chances de sacramentar a virada, o que lhe daria ainda mais moral na luta pelo título. Mas, infelizmente, não soubemos aproveitá-las. Houve, ainda, um penalty claríssimo em Diogo, ignorado clamorosamente pelo árbitro. Este pedira desculpas aos jogadores do São Paulo imediatamente após a cobrança de nosso penal, desperdiçado por Washington. Era de se esperar a compensação.

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Como o mundo dá voltas… No ano passado, a essa altura, estávamos na dúvida entre abandonar o Fluminense ou abraçar a causa absolutamente insana de apoiar o time, “virtualmente rebaixado”, até o último segundo. Hoje, estamos reclamando de um empate em casa, estando na liderança, com 3 pontos de vantagem sobre o segundo colocado e, pelo menos, a 7 do terceiro.

Entretanto, alguns aspectos do futebol brasileiro não mudam… Quando falta brilho à nossa participação na rodada, eis que surge o Flamengo para salvar o fim de semana!

Por Marcelo Schiaffino

Créditos da imagem/capa: www.feemdeusepenatabua.wordpress.com

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