Bendito Flu – O blog da equipe – Quando o Maracanã ecoava…
Conheci o Maraca nos anos 70, com o estádio já muito maltratado. Minha estréia foi numa noite chuvosa, em que o Fluminense, de Carlos Alberto, Rivelino, Dirceu, Pintinho e o resto da Máquina goleou o Botafogo e seus Manfrinis. Cá entre nós, sempre foi um prazer ver o Botafogo levar uma tunda… Foi a primeira e única vez que andei num puma. Atrás num puma! Sete anos de idade…
Só quem entrou no Maracanã antigo, antes das reformas que já o haviam descaracterizado, sabe descrever a sensação única que era entrar naquele estádio. Normalmente vinha eu do Méier, com meu pai. Descíamos do ônibus na avenida Maracanã, comprávamos o ingresso (papelzinho colorido, cuja metade ficava de recordação) naquelas roletas, em meio a um mundo de gente. A roleta azul, igual a umas poucas ainda existentes nos trens, semelhantes a dois pentes que se cruzam, e pronto: a rampa do Belini. Ao chegarmos ao topo da rampa, onde hoje existe uma estátua do Garrincha (que meu velho diz que era um fricoteiro…), virávamos sempre, fosse qual fosse o adversário, à esquerda.
No anel externo saia tapa por um refrigerante nos intervalos. Ele era mal iluminado e, no fim dos jogos, era normal que a água dos banheiros inundasse o corredor de saída. Tinha o seu cheiro e seu glamour…
Os corredores de acesso ao estádio eram compridos e estreitos, apertados, de forma que não cabiam 3 pessoas ao mesmo tempo uma ao lado da outra nele. Você entrava num buraco abafado, escuro, e ao caminhar, o som do anel externo sumia nesse ambiente abafado. Uns 10, talvez 15 passos. Havia uma placa (normalmente de Coca-Cola) de lata, pregada na parte superior do túnel, já perto da boca de saída. Eu precisava bater ali algumas vezes pra fazer um barulhão. Será que dava sorte? Fato é que me chateava quando entrava num corredor sem a tal propaganda de lata. A experiência de sair daquele corredor… em um único instante, descortinava-se a visão do estádio e o som único do Maraca já cheio de gente. Era um momento de plenitude visual e sonora, uma coisa de provocar um certo êxtase, mesmo você já conhecendo a sensação (ora, um orgasmo é sempre um orgasmo, não?).
Você não ouvia o som e depois o visual ou vice-versa. Era como abrir as cortinas do espetáculo e este já estar em sua plenitude. Passou neste túnel apertado? Entrou no estádio? Caso negativo, amigo, você não conheceu o meu Maracanã.
Ao alargar os túneis, em nome da segurança (não discuto a correção ou não, mas apenas o efeito colateral), este impacto acabou. Por ser muito largo, de fora você já tem uma ideia de quão cheio está o estádio, e já ouve tudo o que se passa lá dentro. Ou seja, aquela sensação fantástica simplesmente acabou. Essa pra mim foi a principal mudança que o estádio sofreu, a que o mudou para todo sempre.
Nas arquibancadas, não havia divisões físicas. Havia duas colunas de policiais, e no meio, uma corda isolando as duas torcidas. Se a polícia notasse que um lado estava mais lotado do que o outro, o policiamento se deslocava, dando mais espaço para a torcida mais presente se acomodar. Todos nós fomos a jogos com muitos milhares de pessoas e este esquema sempre funcionou perfeitamente. Ao se fatiar a arquibancada em cinco partes fixas, criou-se um novo problema. A torcida maior ficou esmagada em seus dois setores, e o setor branco – teoricamente um setor neutro, no centro do campo, virou terra de ninguém, pois se tornou o local para onde a torcida maior se deslocava. O espaço neutro se tornou aquele mais sujeito a confusões.
Pior do que tudo isso, foi o conceito de isolamento das torcidas, criado nos idos dos anos 90. A mesma separação feita pela polícia dentro do anel do maracanã era feita nas duas rampas de acesso, a do Belini e a da Uerj. Cordas e policiais entre as duas torcidas. As torcidas desciam se xingando, se sacaneando, mas o equilíbrio de forças e a presença da polícia inibiam a violência. A partir dessa nova separação das torcidas, o entorno do estádio virou terra de ninguém. Para quem fica à direita das tribunas de honra, por exemplo, isso significou entrar e sair do estádio pela rampa da Uerj. Eu que me dane se venho da Tijuca, onde morava quando a brilhante ideia foi implementada. Eu que me vire pra me cuidar no entorno do estádio, que tenho de circundar praticamente todo porque sou impedido de sair pela porta que me serve. Não foi nem uma nem duas vezes que tive medo de ser surrado nos cantos mortos do estádio, perto do Célio de Barros – o estádio de atletismo – ao dar de cara com torcedores rivais, sendo obrigados a fazerem o mesmo e dar a volta no estádio pra voltar pra suas casas, ao invés de deixar o estádio pela porta que os serve.
Entre outras tantas mudanças que encolheram o estádio, fizeram-no perder o impacto e até um pouco do charme, destaca-se também a construção, no topo da arquibancada, de camarotes fechando a parte superior do estádio. O Maracanã, mesmo com 150 mil pessoas, era muitíssimo bem ventilado. Essa mudança tirou a entrada de ar do estádio, tornando-o um panelão de concreto, quente e sem vento nenhum.
A cereja do bolo do descaso com que trataram o estádio é esta foto que ilustra este texto, minha com Paulo-Roberto Andel, tirada num Fluminense e Palmeiras. Na época em que se montavam museus do futebol no Rio e em São Paulo, os três placares, que tantas vezes me alegraram e entristeceram, viraram sucata sob os olhares tristes dos torcedores comuns, sob a indiferença dos (ir)responsáveis pela sua troca e sob o silêncio de uma imprensa que (já então) prefere torcer para determinada equipe. Peguei os placares antigos, que mostravam apenas o resultado do jogo. Os novos (não sei se de fins de 70 ou começo de 80) eram moderníssimos quando foram instalados. Os mais recentes, dois, em vez dos três anteriores, não eram visíveis de todos os pontos e provocaram o impensável: pontos cegos no estádio.
Acho que o Maraca foi muito maltratado e piorado ao longo dos anos. O meu Maracanã deixou de existir há muito tempo. Espero que o novo estádio que passará a existir cure muitos dos males do fim da vida de nosso amado estádio. Que seja pequeno, novo, diferente, mas que seja único, como era o estádio da minha infância. E que me permita ver ao vivo vários títulos do meu time, que é meu amor mais antigo. Amém!
Por José Augusto Catalano
(Articulista especialmente convidado)
Equipe BENDITO FLU: William Vianna, Paulo-Roberto Andel, Luiz Alberto Couceiro (quinta), Marcelo Vivone (sexta), Márcio Miceli (sábado) e Rita Sussekind (domingo).
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Por Rapha em fev 21, 2012
Parabéns pelo Texto José Augusto Catalano!!!
Tenho 30 anos, mas fui ao maracanã várias vezes nas décadas de 80 e 90 e lembro perfeitamente daquele corredor e da sensação do mundo se escancarando à sua frente ao sair do túnel.
Até as arquibancadas, sem as pouco confortáveis cadeirinhas de plástico e lá em cima, onde hoje são os camarotes, sentávamos eu, meu pai e meu tio (em sua cadeira de rodas) e assistíamos ao show banhados por um vento constante e geladíssimo, vento que fazia minha mãe me obrigar a levar casaco a todos os jogos, mesmo debaixo de sol. Assisti ao carioca de 95 assim…
Infelizmente, a imprensa e políticos, que vivem forçando muitas obras desnecessárias e poucas pertinentes, descaracterizando o nobre estádio, nunca torceram e não sabem a sensação de falta e vazio que estas coisas nos trazem… Nunca entraram naquele corredor, nunca assistiram um jogo lá do alto, nunca saíram na “carcunda do pai” entoando: “Sorria/ sorria/ é tempo de sorrir/ sorria…” e o mais grave e doloroso para eles, não são Tricolores, não vivem ou viveram, apenas existem…
Novamente, parabéns pelo texto.
Por Alexandre M. B. Berwanger em fev 21, 2012
O “novo’ futebol foi desenhado nos bastidores, para a maior parte do público assistir aos jogos do sofá (daí até a nova e reduzida capacidade do Maracanã após reformas) e o restante, pagando caro.
Quem viu o que ra o Maracanã antes, sofre como nós de nostalgia.
Os Fla-Flus eram a Festa do Futebol, não havendo sob a Terra espetáculo igual, de bandeiras, serpentinas, alegorias, fantasias, rolos de papel higiênico, fogos, talco, e muitas, muitas, muitas bandeiras, de todos os tamanhos………quem viu, viu…..
Por Rodrigo Mundial 1952 em fev 22, 2012
Sou do tempo de quem ficava com a bunda quadrada no concreto das arquibas rs ! So aquele colchaozinho tricolor pra sentar salvava kkkkk Era claaaaassico ! Uma pena o Maraca passar de Maior do mundo para 26 posicao. “Que tembo bom / Que nao volta nunca maaaais !”
ST
Por Geraldo Chaves em fev 22, 2012
Poxa,.. viajei no tempo com essa descrição dos corredores de acesso – era isso mesmo.
Uma sensação emocionante quando na saída visualizávamos o campo e ouvíamos o rumor do público presente.
Eu morava no interior do RJ e minha primeira vez no maraca foi em 64 num jogo que perdemos do do Bota (seria pé-friagem?).
Depois vieram vitoriosas finais de 69 Flu 3 x 2 Fla (super lotado); em 71 Flu 1 x 0 Bota; A decisão em 70 contra o galo; a final de 76, o tri em 85, e por aí vai…
Eu posso dizer com orgulho que conheci o verdadeiro Maracanã, que ficou conhecido no mundo inteiro como o templo do futebol.
Por Marcelo Natarelli em fev 22, 2012
Se trocassem o nome do estádio não haveria mal algum, aliás acho que o novo dono deveria promover um concurso.
O que se ergue ali, hoje, é um mausoléu sobre aquele que já foi o maior do mundo.
Mas nós temos a vocação para o esquecimento e memória nunca foi o forte do nosso povo.
Como bem traduz o nosso hino nacional assistimos, mais uma vez, a tudo em impávido colosso, deitados eternamente em berço esplêndido.
STRI.
Por Luiz Pereira em fev 22, 2012
Olá patota Tricolor!!!
Belo texto Catalano!
Me senti numa viagem no tempo, pois, aos 46 anos vivi tudo isto e mais um pouco do que foi dito.
Me lembrei de quando me juntava à torcida Young-Flu, mesmo sem nunca ter sido membro desta torcida. Simplesmente, gostava de ficar em pé, empurrando nosso time. Seu Armando e sua liderança em meio aos mais jovens. Todos o respeitavam.
Lembrei de nosso glorioso Careca e sua camisa de mangas compridas de cor branca, sua bandeira amarrada às costas e aquele monte de talco que ia varejando em todos à sua volta.
O leite Longa Vida em formato de triângulo e o inesquecível cachorro-quente Geneal!
Valeu! Me senti com meus 10 ou 12 anos.
ST, Luiz.